Praça

“Pai, por que me deixaste aqui? Eu não queria vir pra areia…”

Foi o primeiro pensamento que tive naquele dia. Era um domingo ensolarado, numa praça vasta em área verde flamejante, rica em saúde e ornada por belas violetas roxas num canteiro muito bem cuidado. Havia um banco de areia, no qual os brinquedos que eu mais gostava estavam. Escorregador, trepa-trepa, balanço, gangorra. Era sempre divertido ir pra praça: o Tito e a Lívia sempre estavam lá no mesmo horário. Acho que nossos pais combinavam. Eu chegava lá e o pai já dizia para eu me cuidar, não falar com estranhos, brincar tranquilo com meus amigos.

A Lívia era legal. Gostava de brincadeiras com bola. Jogava futebol conosco. Tinha um chute potente, de bico – quando acertava a bola. Coitada – coordenação não era seu ponto mais forte nesse esporte. Ela levava as bonecas, sempre com roupas ajustadas, além da escova de cabelo escolhida a dedo para pentear suas Barbies. Não se importava de sujar suas roupas de marca e seus cabelos loiros e encaracolados na areia bruta de lá. Era muito legal a Lívia.

O Tito tinha problemas, era certo. Ele sempre vinha com um carrinho. Um por semana, diferente. Os domingos eram divertidos quando ele estava de bem conosco. Quando eu perguntava sobre o carrinho da semana anterior, ele ficava brabo. Não falava. Encolerizava-se. Ficava vermelho. Muito vermelho. Berrava e eu não dizia nada. Achava estranho. Era muita gritaria para tão pouco.

“Pai, por favor. Me tira daqui!”

Quando nos juntávamos, era bom. O Tito, apesar da tenra idade, era afixionado pela Lívia. Ele era maior que eu. Bem magro. Juntando com as atitudes estranhas dele, parecia um mongoloide em grau elevado de alguma síndrome, tal era o jeito que ele a olhava. Eu me enciumava um pouco, mas acho que era mais por não saber o que fazer – parecia que ele queria se adonar dela. Eu caminhava rumo ao balanço, enquanto os dois ficavam lá. Ela, com a Barbie; ele, com o carrinho, mas sem movê-lo, apenas observando a menina.

Começava a balançar. Devagar, visto que minhas pernas ainda não era muito fortes. Aos pouquinhos, ganhando impulso, ganhava altura. Pensava em fazer a volta por cima da barra. Loucura, eu sei. Mas pensava. Nunca fiz. Nesse espaço de tempo eu pensava nos meus brinquedos. Via que meu pai conversava com a mãe de Lívia, segurando minha bola. Às vezes eu os achava muito próximos, mas nunca dei bola realmente. Preferia cuidar da minha amiga. Eu gostava dela. Era muito legal.

“Me segura, pai! Não me deixa aqui!”

Quanto mais alto eu ia, mais eu olhava pra cima. O céu, naquele domingo, ficou nebuloso. Escureceu. Ouvia meu pai me chamar para ir pra casa. Eu queria ficar ali, voando cada vez mais. A Lívia e o Tito ainda estavam ali embaixo, então pra que me preocupar? Fiquei ali. O pai não falou mais nada. Quando olhei para o lado, ele caminhava com a mãe da Lívia, conversando. Parecia feliz. Enquanto isso, eu me balançava – olhava o céu. Aquela nuvem parecia um algodão gigante. Era que nem o algodão que minha mãe passava em minhas pernas quando me arranhava todo nas brincadeiras da escola – o piso de concreto não favorecia qualquer queda. Ardia. “Vai sarar”, ela dizia, “para quietinho”. “Dói, mãe, para”, eu reclamava. “Guri bobo! Isso é para teu melhor”.

Aquele algodão todo se agigantava. Ainda não escurecia, mas era branquinho. Passei a me lembrar que sempre que a mãe me levava pra praça, eu ganhava algodão-doce. Era bom. Um tinha gosto de morango, parecia. Apesar de que, ao perder a cor, o gosto parecia partir também. Sei lá. Era bom. Enquanto o balanço descia, lembrava da minha boca se enredando no algodão; quando subia, todo ele na minha boca. E eu ia e vinha, comendo aquele algodão. Terminei o algodão em doses curtas, bem aos pouquinhos. Só que, ao ver o palito, ele estava ensanguentado.

“Pai!”

Um grito. Volto meus olhos para o chão. Lívia caída. Sangrando. A cabeça enterrada na areia. Crianças correndo por todos os lados. Um adulto amedrontava quem ficou por ali. Eu não sabia quem era. Não sabia como era. Não vi seu rosto. Eu só me balançava. Até a hora em que ele me pegou e saímos de lá. “Pai, me tira daqui!”, eu clamava. “Quieto!”, ele dizia.

Saí do banco de areia. Eu queria ter ficado em casa naquele dia. O videogame era tão bom. Meu pai insistiu demais, querendo que eu visse a Lívia. Eu não sabia o motivo. Nunca soube. A mãe dizia pra eu ir, pois meu pai argumentava que era pro meu bem sair para outro lugar que não fosse a escola durante a semana. Eu sempre acreditei neles. A mãe fazia umas caras estranhas pro pai, mas assentia e íamos. No caminho, o pai falava no quanto a Lívia era boa comigo. Sempre gostava de saber disso, pois  quando brincávamos não parecia tão assim. Ouvi um tiro. E outro grito.

Lívia morta. Era estranho pensar nisso. Nunca soube o que era a morte e ela só parecia dormir com molho de tomate na cabeça. Só que não era tão simples. E eu estava saindo da praça, carregado por aquele homem sem face. Eu tentava olhá-lo, contudo ele me pegou de um jeito que não me fazia sequer levantar a cabeça direito. Sentia um braço forte cruzando minha barriga, enquanto ela se contorcia. Sentia vontade de exalar odores. Flatulência ficou muito forte. É engraçado isso, estava nervoso demais e meu estômago atacava. Que eu faria? “Me solta!”, eu dizia. “Vai comigo, guri!”

“Pai, por que tu sumiste? Eu só queria que me levasses de lá! Pra que nós fomos, pai?”

Subia ruas e descia. Entrava em lugares estranhos – uma casa velha numa rua silenciosa; um quarto sujo numa pensão mal cuidada; uma rua estreita, sem qualquer pessoa. Becos, buracos, nada. Lugares-nada. Ninguém vivia neles. Eu não via ninguém. Ninguém com cara, com jeito de gente. Eu só via o chão, carregado daquela maneira. “Vou te largar aqui”, ele disse. “Por quê?” – Barulho de sirene. O homem queria fugir. Eu via seu nervosismo, se virava muito para trás no decorrer do caminho. O que será que ele queria? Por que a Lívia tinha morrido? Por que eu não via nada? Eu queria algodão doce naquela hora, só isso. Queria minha mãe por perto.

Caí e ele se foi. Minutos depois, a polícia me achou. Levaram-me de volta à praça, não sei por quê. Eu queria ir pra casa, ver minha mãe, contar o que aconteceu, saber de meu pai. Ele me deixou lá! Eu não o vi mais depois que estava conversando com a mãe da Lívia, feliz. Eu também estava feliz, mas pelo algodão que eu via no céu. Não queria mais saber do Tito e da Lívia. Nada daquilo.

Ao chegar na praça, o local estava interditado. O banco de areia ainda tinha o corpo de Lívia ensanguentado. O Tito não estava mais lá. Era um silêncio mortal na volta onde eu estava. Aproximei-me mais das pessoas que estavam conversando. Olhei de novo pra Lívia. A boneca dela estava lá, toda suja. Senti nojo. Olhei de novo pra cabeça de Lívia enterrada na areia e não quis olhar mais. Não era uma cena legal. Não era nada bom.

“Filho!”, surgiu minha mãe.

Abraçamo-nos. Abraçamo-nos em meio ao silêncio horrorizante da praça. Silêncio mórbido, de castas almas perdidas numa areia coberta de sangue e dor. De fora, almas impuras observavam com pavor mortal o resultado dos acontecimentos daquela hora. Eu disse que queria ir pra casa. Minha mãe, chorando, dizia pra irmos, mas que eu ficaria com minha avó, pois precisaria resolver problemas. Perguntei por meu pai. Ela não me disse nada, apenas para ir.

Cheguei em casa e minha avó estava arrasada. Dizia pra eu tomar um banho, depois conversaria comigo. Obedeci. Era tudo que eu precisava: um bom banho, deitado naquela banheira, com aquele pato que sempre me fez companhia. Pato que meu pai me dera. E meu pai, onde estaria?

Tantos anos se passaram. Tanto tempo se foi. Um desejo incólume me penetrou as lembranças, anos atrás. Eu não queria repetir meu pai. Eu não queria repetir tudo que acontecera para ter um final como aquele. Amo minha esposa. Desejo-a ardentemente, noite e dia. Não quero saber de qualquer coisa que seja diferente disso. As consequências podem ser totalmente descabidas por um ato simples, modesto, despretensioso. Imagine quando fosse por algo que realmente abalasse a integridade de um homem. Nunca mais as coisas seriam como um dia pareceram. Muito menos aquela praça.

por Lucas Postado em Conto

Omara

Sabia que um dia isso aconteceria. Tinha perfeita noção de que lidava com uma chama que ainda não houvera acendido. Sabia que logo inflamaria, explodiria. Precisava comunicar a rainha. Não queria fazê-lo. Se se calasse, seria morta; se falasse, matariam a menina. Não queria a morte de Niev. Criara-a como a própria filha. Criara-a com gosto, deixando um pouco de seu traço na personalidade ofegante da bela princesa. “Bela menina”, sempre pensava. “Por que fugiria assim? Terá um reino diante de si em poucos anos”, refletia. Não suspeitava que Nuura pretendia manter-se no poder por muitos e muitos anos ainda.

Sai do quarto de Niev. Avança pelo corredor. “Não, não, não”, murmurava. Nuura destruiria tudo. Nuura era má. Nuura não quer saber se é mãe, filha, criada, plebeia, nada. Nada pode escapar dos olhos da rainha. Para um minuto – chegara ao onde a princesa brincava quando pequena. Era uma sala anexa ao corredor, onde havia uma grande quantidade de bonecas de pano, almofadas róseas. A aia sentava com a então menina e brincava. Relembrava de sua infância, no interior do Reino das Névoas. Pensava que, se nunca houvesse perdido o pai, talvez fosse ainda uma plebeia arisca, de trato difícil, mas de coração grandioso. Ao refletir, sentia-se próxima de sua protegida. “Temos o mesmo coração”, acalentava-se.

“Omara, não gosto desta roupa na minha boneca”, dizia a pequena princesa.

Ela continuava observando seu brinquedo, com olhar desagradado. A mais velha a observava. “É um lindo vestido, princesa. Por que não gostas?”. questiona.

“Não sei. Acho feio. É diferente do meu”, reiterava Niev, apontando para o filete dourado que se encontrava junto aos botões superiores de sua roupa, próximos à gola. Omara ria.

“Minha querida”, dizia delicadamente, “nem todas as coisas são iguais, sejam bichinhos, plantinhas, pessoas ou mesmo as roupas de tua boneca. Podes ver que ela tem uma roupa mais simples que a tua, não? Então podes chamá-la de plebeia, se assim desejares”.

“Não gosto das pessoas do povo”, retrucava.

“Por quê, princesa? Serão teus comandados um dia!”.

“Eu sei. Só que eles não se vestem bem”, ilustrava a inocente menina.

“O povo nunca tem a mesma estirpe dos nobres, minha querida, mas são trabalhadores, pessoas de fé, que a ovacionam, bem como à sua mãe. Eles não são ricos, mas são bons de coração. Querem-na bem!”, argumentava a aia.

“Será que eles gostam de mim de verdade?”.

“Naturalmente, princesa Niev. São leais ao seu reino”, definia Omara.

Niev, então, observa novamente a boneca. Sorri. “Vou ser a melhor rainha do mundo”, sentencia.

Omara observa o corredor. Percebe que Nuura se aproxima. Inevitavelmente haverá um encontro. Deve dizer à sua rainha sobre o sumiço da filha. Ereta-se, eleva o queixo. “Uma empregada nunca deve ser um aparelho de submissão ao seu rei, mas um colaborador para o bom andamento da casa”, dizia o finado pai de Niev. Concentra-se.

Nuura a observa parada no corredor. Estranha. Penetra seu olhos com suas pupilas de esfinge. Diminui o ritmo da caminhada. Percebe que algo não está certo.

“Sua filha, rainha.”

“Onde ela está, Omara?”

“Desaparecida, senhora.”

“Desaparecida?”

“Não a vejo desde o início da tarde, quando ela a acompanharia à ida à floresta.”

“Então não está desaparecida”, diz Nuura, com um sorriso levemente malicioso se formando no canto da boca.

A rainha passa por sua subalterna vagarosamente. Omara fica estática. Observa o nada. Permanece exatamente na mesma posição. As mãos entrelaçadas sobre o avental de limpeza, o qual usara apenas para limpar o quarto da menina, desde sempre. “Não”, ela pensa. “Não pode ser”, murmura. Brota-lhe uma lágrima em seu olhar ressecado, mais ressecado no que aquele Reino das Névoas havia se transformado. Inicia a descida pelo rosto devagar, num ritmo de tempo parado. A gota forma um vil caminho no meio da seca. Uma seca fria, inóspita, infértil, inapropriada ao convívio. A lágrima, ainda assim, insistia em seu percurso, em direção às maçãs de seu rosto.

“Niev é morta”, pensava. “Minha princesa”, murmurou baixinho.

A alguns quilômetros, no meio da mata, um lobo lidera uma matilha. Devoram o corpo de um homem forte, açoitado na coxa por alguém sagaz, esperto, que saberia se livrar de um homem daqueles. Há uma adaga no chão. O lobo observa o objeto. Cheira-o. Reconhece seu portador. “Ela está aqui”, pensa. Aproxima-se dos outros. Janta com os demais.

(Inspirado na obra de Camila Fernandes, “Reino das Névoas – contos de fada para adultos” – http://reinodasnevoas.blogspot.com.br/)

por Lucas Postado em Conto

Amantes

O dia de chuva dificultava seu retorno para casa. O trânsito parado irritaria qualquer pessoa que estivesse há cerca de duas horas tentando apenas reencontrar seu lar, organizado, limpo, com comida pronta – era o dia em que a diarista o visitava. Com as duas mãos no volante e o olhar perdido num horizonte nebuloso, observando a luz vermelha do carro em sua frente, pensava no tempo perdido. “Que porcaria”, era a única expressão que saía de seus lábios.

Observa o relógio. São quase 19h30. A Marisa, sua faxineira, preparava tudo com carinho: “Seu Antônio, não deixa a comida esfriar. Fica ruim”, dizia. Ele apenas apartava os pensamentos em meio ao mau humor que lhe consumia a face. Os carros adiante andam um pouco. Ele também. Aumenta a velocidade: 5km/h, 10km/h, 20km/h. Para de novo. Buzinas. “Seu Antônio, tua roupa já tá no armário, dobradinha”, Marisa falar-lhe-ia, se chegasse a tempo de encontrá-la. Irritação. “Saco”, pensa. Buzina também. “Seu Antônio, seu café acabou. Precisa ir no mercado”. Fecha os olhos.

Observa Marisa chegando, no primeiro dia em casa. Era uma mulher robusta, baixa, amorenada pelo sol, volumosa em todos os sentidos. “Essas são as melhores, meu filho”, dizia sua mãe. Aceitou-a tranquilamente. Trabalhadora, nos primeiros dias transformou o pandemônio em um céu azul: toda a desarrumação do homem se viu tragada pela mão carinhosa e organizada de Marisa. Foi-se um primeiro ano exitoso: ele mesmo se sentia melhor no meio da arrumação promovida pela mulher. “Muito me agrada trabalhar pro senhor, Seu Antônio”, dizia ela, ao final do dia, véspera de Natal. Ele a pagou e ainda deu um presente: uma cesta com guloseimas variadas, vinho, castanhas. Coisas que Marisa nunca pensou em comprar. “Minha filha vai amar, Seu Antônio! Muito agradecida!”

Uma filha. Marisa não era sozinha no mundo. Nunca tivera a curiosidade de conhecer parente de subalterno. Já havia sido assim quando morava com a mãe, abastada pela pensão que recebia devido à morte do pai, funcionário do governo federal. “Não quero brincar com ele”, dizia, quando a empregada levava o filho para sua casa. A mãe o observava, seca, sem dizer sim ou não. Saía de perto e voltava ao quarto, para lá passar muito tempo sem dar sinal qualquer de vida.

Abre os olhos. Ainda parado, vê novamente o trânsito se adiantar mais à frente. Ainda assim, o carro adiante não anda, nem o posterior, nem o outro. Trânsito totalmente parado. Já bastante indignado, tira o cinto, bem como descansa as mãos nas pernas, sem pensar mais no volante. “Banho. É só o que preciso”, pensava. Observa as mãos novamente, semi-suadas, ordem de um trabalho duro como o do dia. Observa as mãos e lembra de Domi.

Dominique. Linda. Quando a conheceu, ela tinha vinte anos. Exuberante: morena jambo, cabelos lisos, ondulações corpóreas que fariam enlouquecer qualquer beato. Olhos verdes. Contraste amazônico com a serra gaúcha. Exótica. No dia que ela chegou na sua casa, quase não acreditou no que viu. “Seu Antônio?”, ela questionou. “Minha mãe ficou muito agradecida pelo presente”, dizia, timidamente. “Nós não temos como presentear o senhor, mas como gosto muito de escrever, eu te trouxe isso”. Estendeu a mão. Um envelope, meio amassado, como que trazido nas mãos o tempo inteiro para que não perdesse. Sensibilizado por aquilo, sabendo que a menina havia viajado de sua casa até a residência dele de ônibus, num dia quente, convidou-a para entrar. “Não quero incomodar o senhor”, ela dizia. “Não será nada disso”, responde.

Ela adentra o apartamento e se deslumbra com o que vê. “É tudo culpa de sua mãe”, brinca. “Ela é muito caprichosa mesmo, né? De vez em quando eu a ajudo, quando necessário”, ela afirma. O homem a observa com outros olhos. “Não creio que precises te desgastar na minha casa. Não é muito grande”, sente-se. “Mas é bonita. E tem livros”, diz Dominique, observando a estante de livros do dono da casa. “Fica à vontade”, ele diz, apontando para os livros. Ela sorri e segue até lá.

Antônio senta no sofá, defronte à biblioteca. Observa as costas de Dominique. Estava de short jeans. Branco. Uma camiseta um tanto surrada, mas ainda apresentável, azul clara, com alguns dizeres na frente. Não havia prestado atenção. Distribuída em uma altura mediana, seu peso era proporcionalmente disposto pelo corpo. “Ah, Seu Antônio, aquele livro ali de cima… As “Cartas” da Mariana… Adoro!” – quando ela fala nisso, põe-se na ponta dos pés. Percebe o quão rijas eram aquelas pernas, torneadas – seriam aulas de educação física ou o trabalho que fariam-nas? “Lindas demais”, pensava.

Aproxima-se e pega o livro para que ela veja sua edição. “Linda capa”, diz a ele. “Há muitos livros que poderias ler, caso tenhas interesse”, ele sugere. “Não, Seu Antônio, já tomo muito de seu tempo. Vou pra casa agora”, ela diz. “Tu quem sabes”, responde, “mas leve esse livro contigo” – aponta para “Lolita”.

Ela leva o livro consigo. Olha para trás, ao sair do apartamento de Antônio. “O senhor é gentil”, ela diz. “Mandarei o livro pela minha mãe, tá?”. Ele a observa com candura e diz: “Quando quiseres”.

Dominique. Linda. Filha da diarista. Quem diria.

Os carros andam mais um pouco. Agora, parece avançar bastante. A chuva incessante teima em continuar, fazendo com que seu para-brisas comece a ranger a borracha contra o vidro. Consegue avançar ao ponto de sair do congestionamento. Desvia para uma rua paralela, o que o coloca a 10 minutos de casa. Dominique. Morena linda. Como queria vê-la novamente. Ver aqueles olhos verdes, aquele cabelo liso, a pele achocolatada com altas doses de leite. Havia muita vontade.

Chega em casa. Aliviado. Finalmente: casa limpa, comida feita, banho para tomar. Desce do carro. Pega seus pertences e sobe. Os degraus que levam à sala de casa eram poucos, mas pareciam uma eternidade depois de tanto tempo sentado. Pega a chave. Enrola-se. Cai o molho. “Droga”, murmura. Pega as chaves, pondo as mãos direto na que lhe interessava. Abre a porta.

A luz está acesa. A televisão da sala, ligada. Larga suas coisas no sofá, defronte à biblioteca, milimetricamente organizada. Sua esposa, que havia feito Biblioteconomia, fez questão de reorganizar tudo, texto por texto, desde os manuais acadêmicos, as apostilas, os livros infanto-juvenis, até a literatura adulta, teórica, referencial. Vai até o quarto. Despe-se. Separa uma roupa para pôr após o banho. De repente, sente que uma mão quente lhe envolve o tronco.

“Cansado, meu amor?”, ela pergunta. “Sim. Preciso de um banho”, ele responde. “Ah” – Faz com que ele se vire de frente para ela. “Olha pra mim”, ela diz. “Vim só pra te ver”. “E tu sabes que sou sempre todo teu”. “Me mostra”.

Ela se despe. Linda. Aquele corpo amorenado. Aquelas ondulações perfeitas. Um sorriso maravilhoso. Entrega-se.

Acorda no outro dia. Tudo arrumado. A cama, os livros, a sala. Café da manhã posto. Um recado, numa pequena folha: “Meu poema até hoje não foi lido. Só que já li toda tua vida”.

Sagacidade: eis seu nome.

por Lucas Postado em Conto

Redenção

Às 7h, caminhava tranquilo. O parque, em meio às brumas, resplendia uma sensação silenciosa de magia. A rua não lhe era tão atraente quanto o que havia ao lado: pessoas, correria, fumaça humana, barulhos, locomotiva social. Seria melhor se fosse “loucomotiva”, para ele. Por que tinha de viver tudo aquilo? Por que não viver a bruma daquela gélida manhã? Resolve atravessar a rua.

Adentra o parque. Num misto de folhas e galhos, os raios de sol emanam calor na terra úmida do local. Ele sente o aroma de tranquilidade, mesmo com as nuvens que se formam pela sua respiração. “Há quanto tempo, amor”, ele pensa. “Há quanto tempo quero te encontrar”.

Invade os ambientes mais comuns do parque: praça com brinquedos infantis, o antigo zoológico, a zona dos pipoqueiros, o bar flutuante. O parque se faz mais nebuloso, quanto mais internamente. Ele para. Observa. Silêncio. Ninguém ali. Ninguém fala. Ninguém ruge. Ouve-se apenas o vento, que insiste em resfriar os olhos do homem, secá-los a ponto de ter de fechar a cada segundo para manter sua lubrificação. Inspira. Sente o ar gélido lhe consumir. Fecha os olhos. Conta até oito. Solta. Ainda de olhos fechados, inspira novamente. Segura o ar. Cospe-lhe, quando houve o grito.

“Gente aqui?”, estranha.

Caminha em direção à névoa. Ao lado da lagoa, apesar de pouco visível, tudo parecia tranquilo. Avança, aproximando-se da fumaça. O ambiente, aos poucos, vai escurecendo pelo baixio das árvores, pelo enredar dos galhos. Um túnel verde, denso, belo e nebuloso em sua frente. Sente não estar sozinho. Olha para trás, mas nada vê. Não há ninguém. Há o silêncio novamente. O ar gelado. Volta-se para frente. A névoa não baixa. Resolve avançar igual.

As passadas são lentas, cuidadosas. O giro pelo local o assusta. O vento bate e as folhas estremecem. “Droga”, pensa. “Isso é normal?”, murmura. Olha para os lados. Névoas. Olha para trás. Névoas. Mexe-se em torno de si. Nuvem, névoa, serração, brisa pesada. Arte da natureza, como é arte do homem sumir no nada. É arte do homem mexer-se entre as nuvens, a ponto de formar uma moldura de beleza e calor. No caso dele, de frio. Muito frio.

Quando tudo parecia mais calmo no interior do parque, um novo grito lhe chama a atenção. Não escutava mais nada que não fosse isso. Mais nada vinha das ruas. Nada vinha das árvores. Nada vinha de pessoas ou animais ou insetos ou qualquer outro ser vivo. Nada. Aquele grito corroeu-lhe a mente. Parecia conhecido. Parecia já tê-lo escutado em outra ocasião.

“Não”, ele pensa. “Não pode ser”, murmura.

Chega à zona aberta, quase ao centro do parque. O clarão do sol o cega por alguns instantes. Em meio ao silêncio e à cegueira, vê sua vida caminhando de frente para trás: o dia de ontem, o ocorrido da semana passada, o elogiou do mês passado, a luta do ano passado, a morte dela no retrasado. Embriagado, abre os olhos. Ainda vê pouco. A grama muito verde. Os caminhos arenosos ainda úmidos. Seus pés molhados pela brisa. Suas mãos geladas, tão geladas que mal as move. Levanta um pouco os olhos e vê à direita uma árvore mais próxima, balançando por um vento que não existe. Um silêncio que se faz presente.

“Não pode ser”, fala.

Observa-a, sentada ao lado da fonte central do parque. Linda. Cabelos negros como o ébano, pele clara como a neve. Aproxima-se lentamente. Os olhos castanhos observam a água que pouco se move. “Não”, ele se inquieta. Move-se mais rapidamente. Observa seus lábios, sorrindo. Lábios vermelhos como o sangue. Lábios vermelhos de sangue. Névoas que não aparecem fisicamente, mas que envolvem os pensamentos dele. “Não é verdade”, ele deseja. Ainda assim, aproxima-se mais.

Para. “Morta”, ele pensa. O fim da moça já era consumado. Volve. Fecha os olhos. Respira fundo – e um grito vem novamente. Assusta-se. O grito foi muito mais próximo. Acolhe os dedos entre si. Nervoso, começa a se virar. Percebe o silêncio novamente. A menina não está mais na fonte. Encontra-a na árvore que observara anteriormente. De costas.

O ambiente se fecha. As nuvens ganham densidade. O céu não é mais azul, nem o sol esquenta um mínimo que fosse. Faz frio. Gela o ambiente. E o ensurdecedor silêncio novamente é presente nos pensamentos do homem.

Resolve se aproximar. Ainda está de costas. “Não”, ele murmura. Aproxima-se aos poucos. O corpo dela está parado. Percebe-se levantando um braço para tocá-la. Recua a mão. “Não”, lacrimeja. Para. Observa. Volta-se para os lados novamente e só vê a bruma enredar-lhe seu espaço e sua mente. Encoraja-se. Pensa um instante. Avança. Avança sem medir causa ou consequência. Avança num estado de nervos aflorados pela impaciência daquela situação. Era ela de novo. Na sua frente. Sua pequena Snow-White. Sua linda Schneewittchen. Seu amor, Branca de Neve.

Às costas dela, estica o braço, põe a mão sobre seu ombro. É fria. Imensamente fria. Perde a coragem. Não quer observá-la. Tira a mão devagar. Não quer incomodá-la. Já o fizera uma vez. Duas vezes. Três vezes. Até o momento em que nunca mais fez – até hoje. Sai devagar, caminhando de costas. Eleva-se. Sente que o ar não lhe é mais tão gélido. Fecha os olhos novamente. Quer sentir o calor lhe penetrar o corpo. Em vão.

Ao se virar e sair, ele ouve. Ela se virou. Agora de costas, não quer mais ver. Não quer mais se aproximar. Não tem coragem. A culpa é a maior de todas as desculpas. E a mais verdadeira também. “Não”, ele pensa. “Não vou fazer novamente isso contigo”, fala baixinho. “Sou único hoje. Não há mais redenção para um amor já perdido”.

De repente, o sol lhe ilumina a face. Esquenta-se. Devagar, o corpo vai perdendo o gelo que se transformara. Caminha lentamente rumo ao caminho de saída do parque. Estala os dedos, esfrega as mãos. Fecha os olhos. Silencia. Pode escutar o que acontece fora do parque. Não está mais sozinho. Caminha. Para. Olha para trás. Ela não está mais lá. Partiu.

Alivia-se por saber que é vivo, por saber que é mais do que um passado nebuloso, coberto de dores e antigos amores. Amores partidos, de um tempo em que não sentia vontade de estar com alguém. Tempo em que apenas sua Branca de Neve o fazia feliz, num ambiente de desregramentos e congestão social. Num ambiente que só os insanos seriam bem-vindos. Como ele. Como ela.

Nunca mais esqueceria aquele dia. Principalmente quanto o grito retornava.

por Lucas Postado em Conto

Três Irmãos

Ele olha para o lado. Ela ainda está deitada no capim seco, colhido a duras penas para melhor tratar os animais. Encontrava-se exausta, devido ao dia terrível que enfrentara. Os perigos da floresta lhe foram gigantescos de uma vez só, mas o abrigo lhe fora caridoso. Ela era agradecida, apesar de desconfiada. Ele era caridoso, apesar de desconfiado.

Aproxima-se do celeiro. Antes, um balde cheio d’água, próximo à lateral da casa. Enche as mãos de água. Molha a face.

“Não acha que devemos mandá-la embora, irmão?”, questiona Turnan.

“Não”, responde Torven, seco. “Ela pode ser útil para nós”.

“Como sabes?”

“Toda mulher em tenra idade é útil. Para casar ou para prostituir”, sentencia.

Observam-na se mexer. Resolvem voltar para dentro da casa, onde Durgan corta batatas.

“O almoço não tardará a ficar pronto. Vamos chamar a menina para estar conosco?”, questiona Turnan.

“Quem precisa de mulheres aqui?”, responde Durgan.

Torven o observa. Nota um certo teor de malícia naquela fala, mas não tem certeza. Observa as batatas sendo cortadas: doze. Durgan fizera-o rapidamente. Além do necessário, julga o mais velho. Pega as cascas, leva-as para fora. Joga no chão.

Turnan não se conforma em simplesmente deixar a pequena dormindo no celeiro. “Ela parece jovem demais, frágil demais”, pensa consigo. Vislumbra-lhe um futuro majestoso, grandioso para a menina. Ele sente que os seus ares não são os mesmos dos camponeses. Não vê rosto de quem lida no campo, sequer que arrume a casa. Na noite anterior, reparara nas mãos dela: lisas, delicadas demais. Não sabia o que era esfregar um estaleiro.

Vira-se para Durgan. Ficou impressionado e assustado com tal ímpeto do irmão mais novo na noite anterior. Ela apenas mostrou-se agradável com eles. Era visível que se desesperara pela falta de oportunidades em outros lugares. Não imaginava que o menor se interessaria em meio ao desespero dela. Achava-o doentio, mas aquilo lhe passara qualquer limite. Ao conversar com Torven, não sentiu segurança nem da opinião do mais velho, nem das tendências do mais novo. Discordava de tudo.

Durgan apenas pensava em cortar as batatas. Pensara demais em Niev na noite anterior. Sonhos de união, de casamento, de sexo, de ter alguém para si. Queria possuí-la. Quando pensava nisso, enrubescia. Sentia um calor subir-lhe as entranhas. Os pelos se ouriçavam. A virilha ardia. Um calor incomum, totalmente diferente – sangue latejando pelas veia, correndo com mais pressa que o normal. Queria Niev para si. Custasse o que lhe fosse cobrado.

“Pronto”, anuncia o caçula.

“Estão boas?”, pergunta Torven.

“Que pergunta… Óbvio que estão! Não vês que tirei todo o mofo delas?”, replica.

“Acalmem-se”, afaga Turnan, “não precisamos dessa discussão. Estamos com fome e com uma barriga a mais para sustentar. O que faremos?”

“As palavras de ontem”, intercede Torven, “são suficientes para que ela entenda que terá de ajudar. Mulher é perigo, já diria nosso avô. Precisamos mantê-la próxima, mas de olhos abertos,”

“Eu quero mantê-la bem próxima”, afirma Durgan, “bem próxima”.

Torven o observa. Agora sente a tal malícia. Pensa em uma forma de se aproveitar de Niev usando o irmão. “Ela tem algo que podemos tirar, tenho certeza”, ele imagina. E não pensa nos cavalos oferecidos pela menina. Observa Durgan servindo o irmão Turnan toscamente, enquanto o outro serve bebida a todos. Conhaque. Todos precisavam de conhaque. Fazia-os acordar e mantê-los vivos durante mais um dia de trabalho na natureza.

“Pega”, interrompe Durgan.

Torven se serve. Batatas, carne de ovelha e farinha. Serve-se de alguma verdura. Não há comida para quatro pessoas.

Do outro lado da casa, no celeiro, o sol é impiedoso com Niev. Apesar do frio, queima-lhe a face a vinda dos raios. Abre os olhos. Está viva, ao menos. Mexe com o pulso e sente ainda em si sua pulseira. Apalpa as mãos e percebe a existência do seu anel dourado. Mãos, aliás, machucadas pelas rédeas dos cavalos, as quais precisou aprender a domar em pleno caminho pela floresta. Sente, debaixo da cabeça, estrategicamente colocada, a adaga que vitimou Petru. Sente asco. Coloca, no entanto, todo seu pensamento bestial de lado e oferece-se pra vida: é hora de acordar e aprofundar relação com os três irmãos.

Levanta-se. Estica-se uma vez, sob o olhar de Durgan, que se aproxima da porta. “Belíssima”, pensa. Estica-se novamente, virando-se para o sol. Turnan a observa, devorando seu prato de batatas e queijo. Torven, pensativo, vê o corpo de Niev descendo à posição regular. Sente que há algo de errado naquela situação, mesmo não observando o quê. Analisa cada ponto da roupa da menina e deduz que vai tirar algo dela. Só não sabe o quê.

Enquanto isso, Niev, de mãos na cintura e olhar ao horizonte, sente que é hora de crescer. Veste a máscara plebeia que se prometera e joga sua vida ao destino dos pequenos novos companheiros.

“Vamos lá”. Vira-se. Ruma à casa deles.

 

(Inspirado na obra de Camila Fernandes, “Reino das Névoas – contos de fada para adultos” – http://reinodasnevoas.blogspot.com.br/)

por Lucas Postado em Conto

Nuura

Preso nas catacumbas do castelo, o garoto jazia em fome, sede e tédio. “Não aguento mais”, pensava. “Quero sair logo”, murmurava. As correntes que o prendiam eram gastas, machucando o seu pulso. Correntes que prenderam fugitivos de outros reinos, homens sem palavra, deserdados do poder de gerações e gerações de reis e rainhas. Num reino em que as névoas cobriam boa parte do caminho até suas entranhas, névoas eram observadas pelo garoto, pois sua visão turvava a cada minuto que passava.

Começava a fechar os olhos. Imaginava a festa, uma reunião de máscaras conhecidas e desconhecidas da população. De repente, vê-la por detrás de longas madeixas, de um castanho-claro quase negro, que descia até a curvilínea posição do cóxis, no qual reparava um desenho perfeito de prazer incontrolável. Quando ela se virou e deixou a máscara cair, encantou-se com as raras pérolas negras de seus olhos; com o leve sorriso unilateral, com a tez branca e vívida de uma alteza. Ela o chamou e prontamente atendeu. Sentiu em seus lábios o fervor de um beijo que nunca tivera. Desejou-a intensamente. Agora estava lá.

“Ainda acordado?”

É ela.

“Eu quero sair daqui. Eu não aguento mais!”

“Calma, meu bem. É só mais um pouquinho…”

Nuura entra no calabouço. Suas vestes nobres estavam reduzidas ao vestido que usa por baixo da capa negra e dos acessórios de ouro puro. Estava linda naquela noite. O capricho das aias permitiu sê-la mais uma vez irresistível. Os braços cobertos pelas longas mangas do vestido transpareciam suas mãos: alvas, com poucas rugas, como se o tempo não passasse para ela. A parte superior com a gola alta deixa apenas visível seu rosto, num traçado puro e jovial, como nenhuma outra rainha um dia tivera no Reino das Névoas. Nuura era a perfeição em transe.

“Minha senhora, já ando fraco demais. Não como! Mal bebo! Preciso sair daqui…”

Ela cinge o olhar. Abre um leve sorriso.

“Será breve, meu bem. Trouxe sua comida. Espero que não menospreze o que uma rainha lhe oferta para o desjejum.”

Não estava em condições de negar. Precisava comer. Antes de desenrolar o embrulho trazido pela rainha, porém, bebeu com voracidade o líquido também trazido. Com desejo. Descia pela garganta como as águas de uma catarata. Encontrava seu estômago e o resfriava, aliviava um calor que não existia. A cada gole, um desejo profundo de que houvesse ainda mais. Nuura o observa com ternura, mas maliciosa: logo seu desejo se concretizaria.

Agradecido pela bebida, ele a observa. Seu olhar, antes turvo, agora se clarifica: observa toda a beleza de sua majestade. A claridade, no entanto, continua: a pele clara da rainha fica branca; o calabouço deixa de ser marrom e se transforma em bege, amarelo; as correntes, negras, clarificam tanto que não mais se observam. Estava livre. Livre novamente. Uma dor lhe esquenta o peito. Espalha-se pelo tronco. Encontra os membros. Dói demais. Enreda-se pelo chão. O corpo se contorce sozinho. As mãos diminuem. Os pés também. Ele em si perde tamanho. Ganha em pelos. Grita como se não houvesse nada ou ninguém próximo. Grita ainda mais alto. Palavras de dor e lamento, interjeições que passam de vogais e consoantes a um único e surdo grito. Engasga. Uiva. Uiva fortemente.

A rainha observa com destemor. O debate do garoto aos poucos vai parando, lentamente. Não mais uiva de dor. Não mais reclama da prisão. Está sem fome. Sem sede. Está cansado, enfim. Nuura tira os grilhões. Pega-o no colo e o leva pelo corredor. Sons de gotas escorridas pela parede e chocadas no chão são as únicas companheiras presentes. Nem os insetos se atrevem a se aproximar do local. A rainha apaga as tochas com sopros homéricos, de um pulmão fortificado pelo tempo. Tempo esse refeito por ela.

Chega à saída. Abre o portão, pouco distante do local. Repousa o ser ao lado externo. Beija-lhe a testa e retorna ao castelo. Bate as mãos umas nas outras. “Pelos”, ela pensa, desprezando. “Uma rainha precisa estar bela sempre… Para sempre.”. Olha para trás: nada. Olha para o céu nublado, noite de uma lua cheia desigual, tamanha proximidade estava com o castelo das névoas. “É hoje que meu príncipe recebe mais um súdito”, ironiza.

Retorna pelas catacumbas, mas em seguida sobre pelas escadarias reais. Fecha todas as portas com suas chaves – única detentora das passagens mais secretas do castelo. Olha para todos os lados, a fim de não ser observada. Sobre os lances de escada que levam a seu quarto. Passa pelo de Niev, com a porta entreaberta. Lê silenciosamente. “Que livro estranho”, pensa. “Parece que já o peguei antes, não sei”. Ainda assim, pé ante pé, sai do corredor. Observa a palma da mão – lisa. Levanta um pouco a manga da camisa: lisa. Um pouco mais: ainda seca, pouco enrugada. “Está funcionando”, alegra-se. Sobe mais um lance de escadas. Chega ao seu quarto.

“Espelho, espelho meu. Observa-me! Veja meus traços! Eis defronte a ti a mais bela de todas as mulheres?”

Do espelho, uma armação antiga, enorme, de madeira cingida pelo tempo e pelos óleos da rainha, uma imagem se transfigura: o que era reflexo de Nuura é agora um repositório de fumaça, de onde surge um rosto masculino, de traços idosos, sem olhos ou dentes, que prontamente serve sua majestade.

“Sim, minha rainha. És a mais bela de todas! Devo dizer-te que tua beleza necessita cada vez mais de tuas presas: o tempo é inimigo da vaidade! Se quiseres manter-se pura, mais pureza deverás extrair para tal.”

“Não há riscos para que minha beleza seja destronada, meu glorioso espelho? Ou devo apenas me preocupar com meus jovens?”

Um silêncio se fez breve. O rosto presente no espelho move-se para cima. Desce. Aponta para o lado. Aponta para o quarto mais próximo. O da porta entreaberta.

“Maldição”, pensa.

Na porta dos fundos do palácio, um animal se levanta. Cansado e com dor, move-se lentamente para o meio da floresta. Observa-se, como num susto. Uiva novamente. Corre. Corre para longe. Passa por árvores, tocos caídos, plantas altas; pula troncos, desvia da água. Até que se encontra com uma matilha.

Do alto da torre, Niev ouve tudo. Sente medo. Não quer lobos próximos de si. Sente, contudo, um doce amargor pela vida que eles têm.

 

(Inspirado na obra de Camila Fernandes, “Reino das Névoas – contos de fada para adultos” – http://reinodasnevoas.blogspot.com.br/)

por Lucas Postado em Conto

Véu

Olha para o relógio pela última vez. É quase hora. Para quem receia, para quem seduz, para quem ama. O céu era encoberto por espessas nuvens que bloqueavam a beleza do céu – mas não a força do raio solar. Descia com furor, queimando a pele de quem insistia em sair à rua naquela tarde. Olha para o relógio novamente. Preocupa-se. Há pessoas demais caminhando por lá. Ela ali, estagnada.

Corou-se ao perceber que já passava meia hora. Meia hora! Imagine: sentada defronte à loja, numa cafeteria que expusera suas economias a um enterro, encalourada por um mormaço extasiante. E nada. Espera que chegue logo. Meia hora ainda é um prazo aceitável. Mexe novamente a colher de plástico na xícara de chá. Frutas vermelhas, seu preferido. Bebe um gole, dois. Repousa a xícara no pires. Cruza os braços sobre a mesa e espera novamente.

A discussão da noite passada foi difícil. Colocou-se na situação dele. O ciúme dela foi desmedido, inconsequente. Tanto era verdade que ela passara a noite toda repensando no ocorrido. “Aquela puta deveria saber que a gente noivou por acaso?”, “Aquela anta não sabe se colocar no próprio lugar?”, “Estrume humano! Ela que vá à merda com esses desejinhos de felicidade pra gente! Eu sei que ela te quer!”, “Tu não vês nada, seu idiota, mas eu vejo! Eu sei de tudo! Manda essa mulher à puta que pariu!”, entre outras falas, era o que desejava esquecer. Só de relembrar do rosto dele, marejando entre tristeza e raiva, sentia seus olhos incharem. Sentia que o erro foi dantesco. Afinal, aquela mulher era só colega de trabalho dele. Só amiga dos dois. Há quase dez anos. Para que aquele ataque todo?

A loja permanece aberta, mas o tempo passa. O véu é tão lindo. Exposto na vitrina, o vestido de noiva dos sonhos dela estava disponível para enfim realizar seu sonho. Ambos saindo da igreja, com chuva de arroz e diversos gritos de “boa sorte”, “até que a morte os separe”, “que não seja logo”. Via-se com um véu já retirado, recebendo um beijo estonteante de seu amor, de seu agora marido. Marido. Essa palavra soava tão bem no seu ouvido. Marido. Queria tanto ter um. Ser a senhora-de-alguém. Ser importante para alguém. Mas o tempo passava e ele não vinha nunca.

Uma hora de espera. Teria acontecido alguma coisa? Ela preferia nem pensar. Ele ficava louco depois que discutiam. Saía, batia a porta de casa, entrava no carro e pisava fundo no acelerador. Cheiro de pneu queimado era uma rotina nesses casos. Urrava expressões de descontentamento, de dor, de raiva, de distanciamento. Horas depois, ligava para saber se estava tudo bem. Assim, seu coração sempre se acalmava. Ontem ela passara dos limites. Sabia que ele apareceria uma hora.

Enquanto isso, o tempo passando. Enquanto isso, o vestido de noiva. Enquanto isso, o véu lhe tapava a face. Via tudo sem foco, enuviado. Ele se aproximava. Ela não via sua face direito. Não sabia se ria ou se chorava. Sabia que estava em sua frente, mas era diferente. Era nebuloso. Não era ele. Ao menos achava que não. Sentia a observação mais próxima, mas não via olhos, nariz ou boca. Que bizarra essa imagem! Logo atrás, ela. Aquela maldita. Sabia que estavam juntos! Só vê a loirice de seus cabelos. Mal se vê o penteado chanel. Mal se vê se ela o toca. Apenas vê seu ciúme entrevendo através do véu. O véu era lindo. Não queria mais véu: via pouco de seu mundo.

Via pouco de seu mundo. Há anos não parava para pensar nisso. Tanto queria algo que lhe cobria a visão. Não queria ver a realidade? Não queria saber se ambos tinham um caso? Não buscava entender por que ele não vinha? Por que tudo era tapado em sua mente? Piscou os olhos e mais tantos minutos haviam passado. Anoitecia. O chá já havia acabado. Pediria outro? Queria. Ele apareceria? Olha para os lados novamente. Procura em meio ao movimento do crepúsculo encontrar aquele por quem dedicou seu amor, sua ternura, seu ciúme, seu medo. Pela esquerda, pessoas atravessando a rua; pela direita uma rua deserta, tranquila, de um comércio já fechado em época de difíceis vendas.

Olha para o relógio. Agora é a última vez. Com toda a certeza. Pede a conta. Deixa o que lhe restava de salário como gorjeta para o garçom. A loja de vestidos começa a fechar. Ela observa como se se despedisse de uma parte sua. As luzes se apagam aos poucos. As da cafeteria seguem acesas. Muitas pessoas entram e saem, bebem seus cafés, seus chás, degustam suas tortas, seus doces, seus salgados. As luzes da loja baixaram. “É hora de acender a minha luz”, ela pensa. “Nada mais de véu cobrindo meu rosto”. E sai, rumo ao além.

Do outro lado da rua, a loja se fecha. Não sem antes a vendedora retirar o véu do manequim.

por Lucas Postado em Conto

Estranho

Pega a chave. O molho tilinta pelos dedos. Não encontra de imediato aquela que abriria seu aconchego. Ou seu desespero. Não sabia mais. Tilintam as chaves e a luz é baixa. Uma dor silenciosa começa a lhe acometer a mente. “Não me escuta”, ele pensa. Só quer chegar quieto e invadir seu quarto. Dormir é a única solução. A noite lhe chama para uma recaída doce e duradoura – não trabalharia no outro dia.

Encontra a chave. Coloca no local devido. A maçaneta gira e a porta abre. Silêncio. Escuridão. Fecha a porta. “Será que ela não está?”, pergunta-se. Não conseguia lembrar direito daquele rosto. Era esguio ou cheio? Pálido ou saudável? Novo ou velho? Não sabia mais. Eram anos sem observar. Ia lá quase todos os dias. Evitava-a a todo custo. Horários difíceis, ruins de haver um encontro. Eram 3h37.

Avança pelo corredor que dá de frente para o quarto de sua mãe. Não pensa duas vezes em correr direto para o quarto. Olha para os lados, como se algo o procurasse. Como se precisasse fugir. Ao dar o primeiro passo, tranca: uma imagem lhe surge. Alva, cabelos brancos, boca entreaberta; rugas, palidez, olhar perdido. Não poderia ser. Não era. Fecha os olhos. “Não!”, pensa. “Não!”, clama. “Não!” – abre os olhos. A imagem continua ali, estática. Dá um segundo passo – a imagem se aproxima.

Lembra da mãe no dia em que ele quebrou o braço na escola. Ela veio buscá-lo. “Não te cuida, moleque!” – e levava um tapa na orelha. O braço latejando de dor. Mal movia os dedos. Agora, a orelha doía. Baixara a cabeça e passou a observá-la pouco. Quando lhe oferecia comia, mal respondia à progenitora. “Não seja mal educado, moleque!” – e recebia um tapa no rosto. Silêncio. Quieto. Raivoso. Na ida à festa na casa da primeira ficante, pega carona com seu melhor amigo. O nervosismo faz com que briguem durante horas. Ela não pode resistir aos ataques do filho, acovardado pelas ameaças esdrúxulas de agressão da já cansada mãe. “Não me atrapalha”, ele pedia, “eu só quero que tu fiques longe de mim um tempo. Sai”, gritava. Ela o observava estática. Num surto momentâneo, foi à cozinha. Um garfo. “Não… Fala assim… Comigo, seu moleque!” – Silêncio.

Dá outro passo. A vontade é de seguir sem medo, mas receia. Aquele dia marcou demais sua vida. Não sabia como proceder perante a imagem. Quer falar, mas o silêncio é melhor resposta. Quer sonhar, mas o pesadelo é o maior momento. Avança contra a imagem. Observa como se fosse o último mito a ser descoberto – só que os outros ainda nem foram tocados. Avança e grita: “Sai da minha vida!”

O sol pede licença: é hora de acordar. Uma brisa gostosa invade o quarto e ele sente dominar-lhe o corpo uma vontade grandiosa de sentir o dia. Abre os olhos. O quarto arrumado. O sol ilumina a escrivaninha, que há anos não recebe um texto em papel. Um notebook se faz presente, mas desligado. Pensa se deve sair da cama agora ou esperar. “É cedo demais”, murmura. Estica-se, espreguiça-se. Sente o braço doer. “Maldita”, pensa. A dor da garfada na noite anterior amaldiçoou sua vida. Açoitou um desejo rubro de vingança. Ele tinha de voltar um dia de outra forma.

“Café?”, ela pergunta.

Silêncio. Pensa. Não deve responder. O que ela fez foi além de qualquer ação natural. Boçal.

“Não”, ele diz.

Levanta da cama. Abre o roupeiro e tira uma mala. Joga roupas, cuecas, meias, livros, doces, estojo, cadernos, DVDs. Pega as cartas da namorada. Tudo dentro da mala. Abre a janela. A mala cai do terceiro andar e repousa como pluma, depois de amortecer nos fios de luz e na lona do bar que ficava no térreo. Abre a porta do quarto e sai. Não mais a encontra. Sai pelo corredor, invade a sala. Porta da rua. Adeus.

“Por que voltou?”, ela diz.

“Para nunca mais te ver”.

Saca a tesoura. Primeiro, na orelha; depois, no rosto; mais profundamente, retalha-lhe o braço. Os gritos são mudos para ouvidos surdos de dor, de horror, de vergonha, de vingança. O rosto da velha mãe não se parecia em nada com aquele que pariu a criatura que hoje exterminava com sua vida. Hoje, para nunca mais, seu filho deixava aquela casa de sofrimento. Hoje, para sempre, a culpa deixara de ser dele: abandonou o silêncio para que os gritos ensurdecedores da idosa o dominassem por completo. Sentia, no entanto, uma dor agridoce, uma mescla de alívio com arrependimento. Matara seu berço, enfim.

Anoitece. A porta da residência estava aberta. O vento invadia e saía tranquilamente, enquanto fazia a porta bater-se levemente no seu marco. Continuava a escuridão. Continua o silêncio. Agora, para sempre.

por Lucas Postado em Conto

Velha

Amanhece na natureza selvagem. Os raios de som invadem a humilde casa perdida em meio à mata. O vento ainda eclode como se uma magia misteriosa se desvencilhasse de tudo e se chocasse diretamente nos vidros da casa. Ela ainda dormia calma. Sabia quem era a natureza. Suas artimanhas nunca a fizeram diferente perante ao estranho. Sussurrou inúmeras vezes e nunca foi respondida. Trouxe a luz à escuridão e nunca foi punida. Poderia descansar até a velha janela entreabrir-se.

O sol buscava seu rosto. O ar gelado invadia o minúsculo quarto, construído a mãos e patas. Ela dominou a natureza. Encontrou quem lhe auxiliasse. Fortalecera-se no silêncio, na dor e no escuro. Mas o sol insistia em penetrar seus domínios. Um dia, fora tudo o que quisera; hoje, prefere distância. Começava a esquentar sua face. O vento frio, no entanto, enganava o sono dela. Quando o vento mais uma vez se fez forte, chocou-se na janela do quarto. Um susto lhe formou a face.

Abre os olhos. “É ela?”, pensa. Mantém-se na cama. Era dura, com uma pele de carneiro rala dos anos de uso. Mal fazia ela esquecer a dor nas costas. “Preciso me manter alerta”, pensava. Com a porta do quarto aberta, percebe que não é apenas o vento que se faz presente. Ouve passos. “Que não seja ela”, suplica. Mas as passadas perdem em volume. Ganham em quantidade. Alivia-se por um instante. “Ela nunca mais me encontrará mesmo”, relaxa. Relembra o tempo antigo e remonta parte de seus ensinamentos. Prefere deixar tudo de lado e ater-se ao que lhe parecia naquele momento.

Ele a observa na cama, deitada. Aproxima-se. Passadas lentas. Olhar penetrante. Uma mescla de selva com palácio. Um andar nobre, recoberto por uma pele rota e suja. Uma fuga por dia e eis o resultado: cansaço frequente, dores. Quer desistir de tudo e se entregar. Quer dizer à velha que não pode mais. Quando ela o observa, no entanto, seus problemas parecem fugir: necessitava daqueles olhos. Sentia que sua presença era valiosa quando ela o via. A Velha, no entanto, parecia preocupada. Via nele algo que não parecia comum. Precisava saber tudo que ocorria.

“Imagino que me tragas novidades”, ela fala.

“Algo diferente, minha senhora”, responde.

A pele dele se ouriça. Parece que seu instinto quer falar mais alto. “Controle esses olhos grandes”, diz a Velha. Ela sabia que algo o afligia. Quem diria, afinal, que um lobo ficaria estranhando uma situação comum no meio da floresta? Só poderia ser algo novo.

“É ela, minha senhora”.

“Não pode ser, meu Lobo… Atrás de ti novamente?”

“Não, senhora. É ela. É a princesa.”

A Velha ruboriza-se. “Não”, pensa. “Será que…” – prende-se. Não achava ser verdade. Nuura teria colocado a própria filha para fora? Niev não. Era um doce, apesar da infantilidade. Era inteligente, apesar de orgulhosa. Era linda, apesar de… Linda. Linda. Era linda. Claro! Como não pensara nisso antes? A vaidade da rainha a fez com que expulsasse a filha. Nuura não mudara nada. Continuava a mesma. De certo ainda açoitava os jovens do palácio, de todo o reino. As névoas de lá nunca foram tão densas. Impossível ver o que há por trás daquela mente insana.

“Devemos resgatá-la, senhora?”

“Não, Lobo”, ela responde. “Ela virá até nós”.

Distante de lá, passos no meio da natureza selvagem. O vento acolhia o caminho da menina que por lá passava. O medo dominava-lhe as feições. Agora, era apenas ela nesse caminho de dificuldades. Ou era o que pensava.

 

(Inspirado na obra de Camila Fernandes, “Reino das Névoas – contos de fada para adultos” – http://reinodasnevoas.blogspot.com.br/)

por Lucas Postado em Conto

Bailarina

Fim de expediente no trabalho. São 18h e ela quer correr. Correr ao longe, ao distante do mundo vivenciado até então. São 18h. Às 20h seu sonho finalmente se concretizará. Agora falta tão pouco… Pega a bolsa: canetas, caderneta, figa, celular, bombom, tudo guardado. Passa no banheiro. Arruma o coque. Observa-se. “É hoje”, ela pensa. Criadas as mil expectativas, sai e busca novamente a bolsa na escrivaninha. Despede-se dos colegas mais próximos. “Adeus, tudo!”, comemora.

Desce as escadas do modesto prédio. Avança pelo meio da multidão na rua, alvoroçada por finalmente poder voltar para casa. “Não quero casa!”, ela sonha. Via as pessoas caminhando rapidamente e via-se lenta entre todos: caminhar vagaroso, quase mal tocando o chão, numa dança contemporânea de movimentos crus e significados avassaladores. Cria que finalmente era sua hora. E realmente era: o ônibus chegou. Resolve acelerar, apertar o passo. A porta se fecha. Ela dá uma batida de leve, suplica sua entrada. O motorista, observando o coque e a maquiagem feita, sente que a menina carecia de certa atenção. Mesmo contrariado, abre a porta e permite a subida dela. “Obrigada”, ela diz, “pois me salvou. Não posso me atrasar!”

Percorria a zona central da cidade naquele coletivo dotado de tipos diferentes. Havia quem conversava sobre futebol, quem ouvia rádio com dificuldade, quem se aborrecia pelos movimentos exagerados de alguns, quem se excitava por ver sua casa mais próxima. Havia, entretanto, uma curiosa conversa, da qual ela não tirava os ouvidos de sua atenção: “É hoje, então, amiga?”, questiona a primeira, que prontamente recebe a resposta – “Às 20h!”.

Seu rosto avermelha-se. Veriam-na! Que felicidade! Pessoas que ela nunca viu na vida veriam sua apresentação, preparada a duras penas, num palco delicado coberta por uma nuvens de flores vermelhas. Os movimentos fariam com que as rosas subissem e descessem, num desencantar da natureza platônica que envolveria a plateia. “Meu público”, ela pensa. “Aplaudirão minha dança”, ela deseja. Queria ser algo além do que seus próprios pensamentos: queria ser sua realidade nua, aberta a todos. Aplausos, abraços e autógrafos: tríade sonhada há tantos anos.

Aproxima-se do Centro Cultural. Desce, e ao perceber a chegada de sua mãe os pequenos olhos enchem-se de lágrimas. “É hoje, mãe”, ela chora. Não sabia o que fazer. A mãe, acometida por um silêncio divino, acaricia a nuca da filha, os ombros, os braços. Afasta-se, observando-a de frente. Beija-lhe a maçã do rosto e fala: “É tua noite, minha vida. Será a noite dos teus sonhos, depois de tantos anos.” – Assim, fez com que a filha lembrasse da clausura, da impotência, da tristeza depois daquele acidente. Anos e mais anos sem fazer o que mais gostava. Anos e mais anos sem poder levantar uma perna à altura dos joelhos. Anos até fazer com que seus braços se levantassem ao extremo. Nunca mais queria lembrar. Nunca mais esqueceria. Nunca mais aprenderia tanto quanto nesse tempo.

Adentra o recinto e chega ao camarim. Uma chuva de aplausos rasga a emoção da moça. “Linda”, lhe diz um. “Finalmente”, lhe diz outra. “Nervosa?”, pergunta a amiga. “Um pouco”, o mais cheio de receio que poderia ser dito, fora exposto por ela. Ria por dentro. Queria manter-se controlada por fora. Só não sondava falhas. Concentrava-se como há anos gostaria de fazê-lo. As inúmeras noites no hospital lhe foram resguardadas pelas lembranças de um futuro que ainda não lhe era concreto. Apesar disso, o tempo e a força de vontade lhe fez investir alma e carinho em cada movimento de sua recuperação. Lembrava-se dos fisioterapeutas orgulhosos, da técnica de enfermagem que sempre lhe sorria um generoso bom dia todas as manhãs, da enfermeira que lhe era carinhosa, dos dois médicos que a trataram como se fosse filha. “Será tudo por vocês”.

Chega a hora da apresentação. Nervosismo. Ansiedade. Insegurança. Sorriso. Necessidade. Vontade. Paciência. Trabalho. Amor. Segurança. Calma. Feixes do acidente lhe tornam à face. Toca o primeiro sinal. A queda do carro em meio à mata, o desaparecimento, o silêncio, a noite. Toca o segundo sinal. Para diante da rua pela qual entraria no palco. O rosto dele deformado. A imagem do paramédico após ser acordada. A entrada na ambulância. A sapatilha perdida e os sonhos esvaídos. Toca o terceiro sinal. Escuridão. Silêncio no público. Barulho de queda.

De repente, as pétalas começam a dançar. O mundo recomeça a girar. O sonho renasce ao brilhar forte neste noite. Era tempo de voltar. Era tempo de a bailarina acordar. Era hora de dançar.

por Lucas Postado em Conto